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“Dia sem mulher” e sem Congresso em Foco

Estamos com elas e também vamos paralisar nossas atualizações, neste 8 de março, em adesão à Parada Internacional de Mulheres, contra o machismo, o feminicídio, a violência doméstica, a desigualdade de gênero e todas as formas de opressão

por Fábio Góis · Publicado em 08/03/2017 09:00

Ana Volpe

Com a Torre de TV ao fundo, a silhueta eloquente captada pela lente empoderada de Ana Volpe

 

Neste 8 de março de 2017, o Congresso em Foco fará algo inédito em seus 13 anos de história. Em adesão à Parada Internacional de Mulheres no Brasil, que ganhou as redes nos últimos dias com a hashtag #8M, o site também vai parar. Nossas atualizações serão suspensas durante o Dia Internacional da Mulher, que promete entrar para a história como uma das mais massivas e vibrantes manifestações da causa feminina em todos os tempos. Paramos contra o machismo, o feminicídio, a violência doméstica, enfim, contra todo e qualquer tipo de desumanidade contra a mulher, em protesto inegociável contra esses resquícios de barbárie que insistem em nos envergonhar em todo o planeta, em pleno século 21. No Brasil, a cada dia, 13 mulheres são assassinadas em razão de sua condição feminina.

Com o lema #grevedemulheres #womenstrike, o ato convocado promete ser uma gigantesca onda contra a violência masculina e em defesa da igualdade de gênero, entre outras demandas (veja no vídeo abaixo). O protesto, encabeçado por feministas dos Estados Unidos e do movimento “Ni Una a Menos” (Nenhuma a menos, em português), se alastrou por diversos países. No Brasil, mais de 60 cidades aderiram às manifestações neste Dia Internacional da Mulher. “Se nosso trabalho não vale, produzam sem nós” – esse é um dos motes da ação. Mas, acima de tudo, será mais um “basta!” especial a ecoar enquanto perdurar a estupidez e persistir a cultura do machismo.

Assista ao vídeo extraído da página do Partido Pirata – Brasil no Facebook:

Desde que foi lançado, em fevereiro de 2004, o Congresso em Foco sempre dedicou especial atenção às discussões sobre direitos humanos, entre elas, a defesa da igualdade de gênero. E nunca se furtou a se posicionar editorialmente sobre grandes temas. Ainda em seus primeiros anos, o site se pintou de preto, em pleno 7 de setembro de 2005, para manifestar luto pelas sucessivas revelações de casos de corrupção. Situação que só se agravou de lá para cá.

Também se tingiu de amarelo como sinal à sociedade para que avaliasse uma lista de candidatos, levantada pelo Congresso em Foco, que inspiravam muita, muita atenção. Era o caso de políticos com condenações na Justiça, acusados de violações contra os direitos humanos ou que já haviam sido presos – e, mesmo assim, postulavam mandatos eletivos no Congresso, nas assembleias e nos governos estaduais.

A adesão ao movimento convocado pelas mulheres não impede que o site eventualmente, em caso de extrema urgência e relevância, publique alguma notícia ao longo do dia. Colunas, artigos e reportagens produzidas e editadas previamente serão publicadas neste 8 de março. Voltaremos à normalidade nesta quinta-feira, inclusive retratando como foram as manifestações em Brasília e outras cidades.

Apitaços e piquetes

Cartazes com os dizeres “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós” e “Nem uma mulher a menos, nem um direito a menos – pelo fim da cultura do estupro, feminicídio e exploração” foram distribuídos a grupos feministas de diversos estados brasileiros. No Distrito Federal, uma concentração no Museu da República (foto abaixo), a cerca de dois quilômetros do Congresso, reunirá mulheres e homens na mesma causa – estes, na condição de parceiros-coadjuvantes das verdadeiras protagonistas do movimento, é bom frisar. Por volta das 16h desta quarta-feira (8), uma marcha será iniciada rumo ao à sede do Legislativo federal, onde deputadas e senadoras receberão o cortejo em uma “descida coletiva da rampa do Congresso Nacional”, como diz nota intitulada “Mulheres do Congresso param por nenhum direito a menos”. Que também avisa: haverá apitaços e piquetes.

“As servidoras que não puderem se engajar terão oportunidade de se manifestar. Um apitaço está marcado para as 12h30. Além de um item a mais na programação, será um protesto contra as chefias que não permitiram a adesão de suas funcionárias à paralisação em tempo integral”, diz outro trecho da nota assinada pela liderança do PT no Senado.

Pauta cheia

Em pelo menos 21 capitais do país, o movimento também pretende, entre outras coisas, protestar contra a reforma da Previdência, que aumenta a idade mínima para que mulheres possam requerer aposentadoria, além de elevar para 49 anos o tempo de contribuição para que trabalhadores dos dois sexos possam ter direito ao benefício.

“Se essa reforma passar, as mulheres brasileiras que cumprem tripla jornada não conseguirão se aposentar. Essa reforma ataca sobretudo o direito das mulheres e retrocede os direitos trabalhistas conquistados há poucos anos”, disse ao Congresso em Foco a coordenadora da Juventude da União Brasileira de Mulheres (UBM), Maria das Neves de Sá Macedo, diretora do grupo de jovens feministas da União da Juventude Socialista (UJS).

De acordo com Maria das Neves, que é uma das organizadoras da mobilização feminina em São Paulo, o movimento paulista prevê a adesão de pelo menos dez mil mulheres. Segundo ela, as pautas são variadas, mas todas relacionadas à questão de gênero. Os slogans do protesto paulista serão “Aposentadoria fica, Temer sai” e “Paramos pela vida das mulheres”.

Ana Volpe

Marcha até o Congresso terá início no Museu da República

“A ideia é pararem suas escolas, suas universidades, suas atividades profissionais. As donas de casa não devem cozinhar, passar ou cuidar da casa. Além das entidades feministas, se somarão ao nosso ato as professoras da Rede estadual de ensino aqui de São Paulo, que vão estar fazendo uma grande assembleia no Museu de Arte de São Paulo”, disse.

No site oficial do movimento no Brasil, entre os pedidos de igualdade, há ainda reivindicação pelo fim “da degradação humana imposta pelo capitalismo, a subordinação esperada pelo patriarcado e a violência perpetrada pelo machismo”. É o que diz a seção “quem somos” da página.

Origem

O movimento surgiu quando mulheres na Argentina e em toda a América Latina decidiram entrar em greve em 19 de outubro de 2016. Organizada em questão de dias, a chamada ecoou por toda a América Latina e centenas de milhares de mulheres em todo o continente aderiram à paralisação, marcharam e protestaram em resposta imediata à brutal violação e assassinato de Lucía Perez, uma adolescente de 16anos, em Mar del Plata, bem como a uma série de outros feminicídios e repressão violenta no Encontro Nacional de Mulheres em Rosario.

Na época, as manifestantes também destacaram a conexão entre a violência contra a mulher e a violência econômica da desvalorização do trabalho feminino. Ou seja, um protesto contra tipos de estupidez e barbárie que têm sido banalizados e, muitas vezes, sequer são punidos.

Em páginas criadas na rede social Facebook para cada estado, além do site oficial do movimento, a orientação é para que as mulheres que não puderem deixar o trabalho pelo menos usem peça de roupa lilás ou algum adereço com esta cor, como símbolo de participação no movimento. A utilização de uma bandeira da mesma cor, na janela de casa ou no carro, também são válidas como participação, informam as organizadoras.

Arte feminina

As diversas manifestações femininas Brasil afora incluem o ato preparado por grupo de mulheres de Brasília. O manifesto especial, intitulado “Greve Geral das Artistas Mulheres do DF”, é promovido Rede de Mulheres das Artes Visuais do DF e procura “dar visibilidade a uma situação histórica de desigualdades em relação a artistas mulheres existentes nos sistemas da arte”, como diz o comunicado do grupo à imprensa.

“A ação está sendo programada por 33 artistas que se posicionarão em greve ao sistema artístico. Para tanto, o ato prevê cobrir de tecido preto suas obras (exposição Ondeandaonda II, em cartaz no Museu Nacional da República), deixando-as veladas até dia 12 de março. A escolha do local se deu por dois fatores: além de ser o museu o local de concentração do Ato Unificado [Parada Internacional de Mulheres no Brasil], a exposição tem como proposta traçar um panorama das artes visuais no Distrito Federal, permitindo que o ato simbolize o que significa a presença das artistas mulheres na arte brasiliense”, diz o comunicado.

A repórter fotográfica e documentarista Ana Volpe resumiu ao Congresso em Foco o propósito do ato. “Em um momento como este, é importante – e, principalmente, impactante – que tecidos pretos impeçam a visualização de nossas imagens, que tanto dizem sobre nossa luta. Esse impacto é necessário para que fique claro: as coisas precisam mudar”, diz Ana, uma das mais respeitadas fotógrafas do Distrito Federal.

Ana Volpe

Tecidos negros sobre a estupidez do machismo

Além de Ana Volpe, integram o protesto as artistas visuais Adriana Vignoli, Alice Lara, Alina Duchrow, Ananda Giuliani, Ariadne Naves, Bárbara Mangueira, Beatriz Chaves, Bete Coutinho, Camila de Araújo, Clarice Gonçalves, Débora Mazloum, Edith Derdyk, Eneida Sanches, Fernanda Pacca, Gabi, Gisel Carriconde, Isabela Couto, Isabela Lyrio, Janice Affonso, Karina Dias, Leci Augusto, Lis Marina Oliveira, Ludmilla Alves, Luisa Melo, Luisa Günther, Regina Pessoa, Ruth Sousa, Selma Rodrigues Parreira, Suyan de Mattos, Valéria Pena-Costa, Yasmin Adorno e Waleska Reuter.

Em meio a tanto protesto, impõe-se a reflexão. É como disse à reportagem Joelma Rodrigues da Silva, doutora em História e professora da Universidade de Brasília (UnB). “Há séculos temos sido violadas de todas as formas possíveis. A gente precisa mostrar, mais uma vez, nossa insatisfação. Não queremos flores no dia oito. Queremos respeito, queremos viver”, sintetizou a acadêmica, coordenadora da Questão Negra da Diretoria da Diversidade da UnB.

Acrescenta Joelma: “Por isso paramos: pela vida de todas as mulheres, pela vida de todas as raças e etnias”.

Veja no vídeo:


 

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