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Jefferson Rudy/Agência Senado

"Desacreditar a política e os políticos é parte desta estratégia"

 

Por Ricardo Cappelli*

Quando quem deveria defender a Constituição rasga suas páginas e as joga para saciar a fome dos Leões é sinal inequívoco de que estamos diante de uma grave e perigosa crise institucional. Na mesma semana que o Supremo Tribunal Federal (STF) adota posição estranha à ordem constitucional, uma “cassação branca” contra Aécio como bem definiu o ministro Marco Aurélio, outro ministro da Suprema Corte, Ricardo Lewandowsky, publica na Folha de S. Paulo um intrigante “artigo-socorro”, um “grito por ajuda”, uma denúncia explícita da tentativa de sepultamento do Estado Democrático de Direito.

Há muito venho escrevendo. O jogo principal não é contra Temer ou Aécio, figurantes de luxo da ofensiva reacionária. Os alvos são a democracia, incompatível com o atual estágio do processo de acumulação capitalista, e o próprio Estado Democrático de Direito. Solapar a democracia para tirar o povo do jogo, conferindo ao Capital à plenitude na condução dos rumos. Desacreditar a política e os políticos é parte desta estratégia. Sepultar as garantias constitucionais é outro pilar, necessário para esmagar, através do arbítrio, todos que ousem denunciar o assalto aos interesses nacionais.

A caçada ao Lula é consequência, tentativa de impedir o povo de se manifestar implantando uma democracia de fachada, tutelada pela “Aliança do Coliseu” formada pela Globo com setores antinacionais do aparato estatal.

A fala de Mourão, inflada pela Globo que jogou uma “casca de banana” para tentar fazer com que a esquerda se “atracasse” com o exército, buscou imprensar o judiciário e jogou lenha na fogueira da crise. Expressa a insatisfação objetiva que toma conta do meio militar. A base é cada vez mais polarizada pelas ideias neofacista dos “Patriotas”. O alto comando se vê constrangido diante do esmagamento orçamentário e da falta de credibilidade e autoridade de Temer.

Nos generais campeia a mágoa com a esquerda pela exposição de fatos “inconvenientes” pela Comissão da Verdade. Não estamos na iminência de um golpe militar, longe disso, mas a turbulência nos quartéis é real. Terá alguma consequência? Dependerá do nível de esgarçamento institucional e da crise política. Provocar os militares é tudo que não devemos fazer. Hora é de paciência e muito diálogo.

A posição acertada e corajosa do PT se manifestando contra a decisão do STF no “caso Aécio”, pelo seu peso e importância, é um importante sinal de que a “era da esquizofrenia da esquerda” pode estar no fim. Durante muito tempo grassou um comportamento bipolar. Dependendo do acusado, o arbítrio era aplaudido ou condenado. A posição do PT, que nada tem a ver com “defender Aécio” (é incrível que a esta altura ainda tenha gente pensando assim sem entender nada do que está acontecendo), é boa novidade na conjuntura.

FHC, num movimento calculado e previsível, correu para jogar Aécio ao mar, defendendo a posição do STF. É o tucano com visão mais estratégica no xadrez em curso. A cabeça do mineiro já estava precificada. É o contrapeso descartável para legitimar o massacre midiático judicial da esquerda.

Enquanto setores do aparato estatal continuam sua marcha para fulminar a atividade política e os partidos, o Capital liderado por atores Globais monta um “funding” para eleger 100 deputados federais travestidos de “Novo”.

O inimigo estratégico é a “Aliança do Coliseu”, obstinada no seu objetivo de fulminar a democracia. É sob a tutela e o apoio das lentes Globais que agem os operadores do arbítrio contra o Estado Democrático de Direito. Construir alianças amplas que nos permitam cerrar fileiras na defesa da democracia e da Carta Magna de 1988 deve ser nosso principal objetivo. Se compreendermos isto teremos alguma chance contra eles. Do contrário, continuaremos a ser passageiros do nosso destino, a gastar munição com o inimigo errado, mordendo iscas inúteis enquanto a reação “bebe água limpa” preparando o desmonte definitivo do futuro da nação.

* Ricardo Cappelli é jornalista e secretário de estado do Maranhão, cujo governo representa em Brasília.

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