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Cristiano de Assis/Artigo 19

"Cabe a nós termos a sensatez e a frieza para analisarmos esse jogo político, e deixar de vez o discurso da mídia má"

 

Deysi Cioccari, Mara Rovida Martini e Vanderlei de Castro Ezequiel*

A pesquisa sobre política atualmente parece implicar de forma definitiva numa compreensão conjunta com o campo da Comunicação Social, em sentido amplo. A liberdade de imprensa, um aspecto recorrente do pensamento comunicacional, é uma conquista legítima e imprescindível a todo regime democrático de direito, cuja importância é inquestionável e, por isso mesmo, faz parte do debate democrático. No mundo contemporâneo, com o desenvolvimento dos meios de comunicação e das tecnologias de informação ao lado de uma estrutura social cada vez mais ambientada pela mídia, reorganiza-se, em intensa evidência, o relacionamento entre comunicação e política.

Esse processo pode ser observado principalmente durante os processos eleitorais, momento em que a mídia, especialmente a imprensa e as novas plataformas sociais digitais, se torna palco e elemento mediador do debate político. As mensagens políticas produzidas pelos agentes sociais não são mero conjunto de informações, mas devem ser tomadas como produto planejado, construído em massa e com dados minuciosamente escolhidos em vista de um público já diagnosticado em suas características e, principalmente, em seus gostos e desejos. Assim, observa-se que estas mensagens são tratadas como mercadoria e, portanto, produzidas para um público tratado como consumidor. O fazer político passa a depender dessa indústria para atingir seus objetivos.

Num cenário marcado pela crise dos partidos políticos e da ideologia, bem como caracterizado pela desconfiança e descrença nas instituições políticas e na classe política, será observada uma supervalorização dos meios de comunicação, compreendidos como produtores de conhecimento e construtores de representações sociais. A intervenção do campo da comunicação se faz, antes de tudo, em total sintonia com as forças dominantes do campo político. Os resultados dessa relação são variados, de acordo com as situações específicas e das consequências de ações de contra-tendências e resistências.

Há um processo permanentemente tensionado de embate entre as lógicas do campo comunicacional e do campo político, que necessita ser observado em detalhe e dentro de sua complexidade. A compreensão da relação desses dois campos é fundamental para o entendimento da política na contemporaneidade. Os meios de comunicação, nessa seara, não devem ser observados como canais neutros que “registram” uma realidade que lhes é externa, principalmente quando se trata da chamada imprensa tradicional formada por empresas capitalistas de tamanhos variados cujos objetivos se orientam pela lógica capitalista do lucro. Também não se pode toma-los como penetras que perturbam uma atividade política que, no fundamental, ocorre de forma independente.

Apesar de suas existências independentes, comunicação e política se aproximam, se imbricam e se conectam de tal forma na contemporaneidade que o entendimento da política, em suas várias facetas, implica numa abordagem que leve em consideração: os usos que os agentes tradicionais da política fazem dos meios de comunicação (tradicionais e digitais); as relações entre os interesses dos agentes comunicacionais e políticos; a transformação dos agentes comunicacionais em agentes políticos e seu contrário; os novos movimentos de contra-tendências e resistências desenvolvidos com apoio das novas tecnologias de comunicação e informação; a aplicação sistematizada de conhecimento comunicacional (marketing e publicidade) na política que transforma plataformas e projetos partidários em produtos a serem comercializados; o esvaziamento do debate político que parece estar cada vez mais alinhado à lógica comercial; entre outras estratégias possíveis.

Entende-se, portanto, que a tarefa de desvendar o jogo político atual passa pelo entendimento da inter-relação da comunicação e dos atores políticos. Há muito mais numa crise política do que podemos imaginar. A culpa não é da mídia e falar em “mídia golpista” parece leviano demais num contexto marcado por profundos jogos políticos. Cabe a nós termos a sensatez e a frieza para analisarmos esse jogo político, e deixar de vez o discurso da “mídia má” para trás. Há muito mais para ser dito.

*Deysi Cioccari é doutora em Ciência Política  pela PUC/SP, Mara Rovida Martini é docente do PPGCC da Universidade de Sorocaba/ Sorocaba-SP e Vanderlei de Castro Ezequiel é mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero/ SP

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18/10/2017 14:00
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