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Governantes não são eleitos para ser populares. E sim para fazer o que precisa ser feito. Inclusive adotar medidas amargas. Mas é possível ser um governante correto nas iniciativas, mesmo que elas sejam altamente dolorosas à população. E sabe como? Dando o exemplo, fazendo sua parte, demonstrando que não apenas exige, mas também é capaz de fazer sacrifícios.

O governo Temer, que encara a mais baixa taxa de popularidade da história, acha por bem promover um aumento de impostos que vem infernizando a vida já difícil da população. Um aumento no preço dos combustíveis produz inevitável efeito cascata que atinge a todos, sem exceção. Sem exceção? Mentira: atinge muito mais os que estão na base da pirâmide econômica. E que sacrifícios o governo oferece em troca, mesmo que seja apenas uma demonstração simbólica de sensibilidade com a situação da população?

Um governo em boa situação de popularidade, no mínimo exibiria algum tipo de “contrapartida”, algum gesto capaz de sinalizar que compreende e se solidariza com as dificuldades dos governados. Tivesse um pingo de sensibilidade e pelo menos estaria cortando gastos supérfluos – e eles sobram (por isso mesmo são supérfluos), em todas as esferas do poder – a fim de dizer de forma clara à população: estamos fazendo vocês sofrerem, mas também estamos reduzindo nossos gastos.

Beto Barata/PR

"Enquanto isso, os ralos do desperdício e dos privilégios absurdos continuam abertos"

Gozasse o atual governo de altas taxas de popularidade, e as medidas praticadas a título de contrapartida já seriam uma exigência. Mas um governo como este, que garantiu lugar nos livros de história como o mais impopular de todos os tempos, não se enrubesce de exigir sacrifícios e não  oferecer rigorosamente nada em troca. O povo repara…\

Se já é difícil entender que o governo tenha de arreganhar os dentes e morder fundo com a oneração do PIS-COFINS para tentar segurar o infindável deficit orçamentário, ou seja, meter a mão no bolso do cidadão e tirar de lá o dinheirinho suado e limpo que ele consegue amealhar na labuta diária, mais difícil ainda é olhar uma foto da Esplanada dos Ministérios, do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, do Palácio do Planalto, das sedes estaduais e municipais e perceber que tudo continua rigorosamente igual. Os apaniguados, apaniguando. Os engravatados, engravatando. Os privilegiados, privilegiando. Ninguém cede um centímetro das benesses que detém em prol de um esforço nacional de economia de recursos para fazer face à crise. Nem que fosse ao menos para  aparecer no noticiário algo como: “O governo subiu os impostos, mas cortou alguns cargos comissionados. Foram pouquinhos, mas já valeu pelo exemplo”.

Enquanto isso, os ralos do desperdício e dos privilégios absurdos continuam abertos, sem qualquer controle, em todos os poderes e em todas as instâncias. Levantamento da ONG Contas Abertas revela que o parlamento brasileiro custa 1 milhão por hora. O judiciário quase triplicou seus gastos nos últimos dois anos. Além de continuar com sua caixa preta fechada a cadeado – ninguém, nem mesmo os especialistas, consegue ter acesso aos seus números, apesar de existir uma certa Lei de Acesso à Informação que o próprio judiciário deveria ser o primeiro a obedecer. Isso sem falar, na esfera do Executivo, na farra dos cargos comissionados, das passagens aéreas distribuídas a mancheias, dos auxílios-moradia e das cotas para combustível. Sem falar nas tais de consultorias que, em sua maioria, não consultam chonga nenhuma. Servem mesmo é para encobrir gastos pouco republicanos.

Maquiavel, o florentino, ensinava que o príncipe deve fazer o bem aos pouquinhos e o mal, de uma vez. Mas esqueceu que quando o príncipe concorda em comer menos caviar e mais macarronada o povão sente que o Palácio, pelo menos, tenta partilhar um pouquinho do sacrifício que lhe é exigido. Ora, convenhamos: macarronada é muito bom. Nem que seja ao menos para variar…

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