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Da longa entrevista do ex-presidente Lula publicada nesta quinta-feira (1) pela Folha de S. Paulo, chamaram-me a atenção duas respostas.

Numa delas, ele arrancou a máscara de vez, deixando transparecer todo o seu desprezo pelos que arriscamos a vida e a integridade física e mental na luta extremamente desigual contra a ditadura militar: “Se eu não acreditasse na possibilidade de a Justiça rever o crime cometido contra mim pelo Moro e pelo TRF-4, eu não precisaria fazer política. Quem sabe eu virasse um moleque de 16 anos e fosse dizer que só tem solução na luta armada. Não. Eu acredito na democracia, eu acredito na Justiça”.

Eu mentiria se dissesse que fiquei surpreso. Sempre soube ser exatamente este o conceito que ele tinha e tem de nós. Marighella, Lamarca, Mário Alves, Juarez Guimarães de Brito, Joaquim Câmara Ferreira… comparados a moleques de 16 anos?!

Lula nunca foi revolucionário, portanto jamais quis algo além da democracia burguesa, daí sua pouca empatia com os que lutamos nos anos de chumbo com o objetivo imediato de livrarmos os brasileiros de uma ditadura retrógrada e bestial, mas acalentávamos o sonho de que, reconquistada a liberdade, nosso povo perceberia que ela jamais seria completa enquanto existissem explorados e exploradores.

Por não se identificar com idealistas e (o que lhe pareciam ser apenas) quimeras, Lula assumiu uma postura melancólica quando dois ministros do seu primeiro governo, o Tarso Genro e o Paulo Vannucci, se propuseram a agir concretamente para que os torturadores do regime militar afinal respondessem por seus crimes.

Em 2007, ao ser lançado o livro Direito à memória e à verdade, uma espécie de relatório final da Comissão dos Mortos e Desaparecidos políticos do Ministério da Justiça, o Alto Comando do Exército contestou a iniciativa por meio de uma nota oficial simplesmente inaceitável, já que representava uma contestação implícita da autoridade do comandante supremo das Forças Armadas (o presidente da República).

Submetendo-se vergonhosamente à chiadeira da caserna, Lula: proibiu Genro e Vannucci de continuarem pregando a revisão da Lei da Anistia (que igualara as vítimas a seus carrascos); orientou ambos a recomendarem aos sobreviventes dos massacres militares e respectivas famílias que buscassem o caminho dos tribunais; e sugeriu que os heróis e mártires da luta armada recebessem… homenagens!

O desfecho pífio deste episódio foi decisivo para que a impunidade dos carrascos se perpetuasse. Com o governo federal (surpreendentemente) se omitindo e o Congresso Nacional (previsivelmente) se mantendo em cima do muro, o que se poderia esperar do Judiciário, se não algumas sentenças corretas das instâncias inferiores que acabariam sendo sempre fulminadas pelas instâncias superiores?

De resto, aos internautas que tanto me recriminaram quando me posicionei contra a tentativa golpista do Rodrigo Janot e das Organizações Globo para derrubarem o Temer mediante uma armação ilimitada, eu recomendo que leiam o que o Lula disse sobre o assunto: “…era importante manter o Janot. Era importante tirar o Temer. E era importante colocar o Rodrigo Maia. Isso para mim ‘tá claro.

O Temer se prestou a fazer o serviço do golpe [contra a Dilma]. Mas não era uma figura palatável, e houve uma tentativa de golpe [do Janot e da Globo contra o Temer]. Se não, me explica o que aconteceu.

Você acha que na Globo alguém faz jornalismo livre? O jornalista decide e faz uma denúncia como aquela que foi feita contra o Temer?
No mesmo dia já tinha jornalista apostando na renúncia do Temer. E já ‘tava se discutindo quem ia assumir e o que ia acontecer.
Ora, o Temer resolveu enfrentar. Teve a coragem de desmascarar o Janot, o Joesley e ficou presidente. E ainda ganhou duas paradas no Congresso Nacional, não se sabe a que preço. A imprensa dizia que R$ 30 bilhões foram gastos, não sei quantos bilhões. Mas ganhou”.

Ou seja, tanto quanto o Brizola no passado e eu no presente, o Lula encara a Globo como uma inimiga  permanente do povo brasileiro, a não ser apoiada nem mesmo quando se volta contra alguém que a esquerda vê como inimigo transitório (nada indica que Temer não possa futuramente voltar a ser aliado político do PT, assim como o Maluf, o Collor, o Sarney, o Renan Calheiros e tantos outros que passaram de execrados a festejados ao sabor das conveniências de momento).

Neste ponto a minha concordância com o Lula é total.

Como diria o Jack Palance, acredite quem quiser…

*Celso Lungaretti é jornalista, escritor e ex-preso político. Edita o blog Náufrago da Utopia.

Do mesmo autor:

<< STF tem chance de rever impunidade de carrascos da ditadura

<< A farsa do discurso petista do golpe

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