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Divulgação PGR

“Enquanto houver bambu, lá vai flecha!”, disse Janot sobre seus últimos dias de gestão na PGR

 

Ricardo Cappelli *

“O MP tornou-se na prática um quarto poder. Não se subordina ao Legislativo, nem ao Executivo nem ao Judiciário. Passou a dispor de discricionariedade incomum a atores não eleitos. Transformou-se em organização incomum na democracia”

(Maílson da Nóbrega)

Consagrou o conceito de ética da convicção no combate à corrupção. Desconsiderou a ética da responsabilidade. Fez da corporação sua principal referência e bússola. Abriu mão da imparcialidade e da prudência para vestir a capa de enxadrista político. Manobrou informações no tempo a serviço de sua estratégia. Ao avançar sobre Cunha somente após este ter feito o trabalho sujo, deixou suas digitais no golpe contra uma presidenta impopular, mas honesta.

Seu pronunciamento em 2013, falando sobre o desafio de assumir a PGR, causou impressão positiva. Rodrigo Janot criticava o histrionismo e pregava o equilíbrio. O PGR que se despede hoje carregará para sempre a mácula de ter comandado uma caçada “santa” ao presidente mais popular de nossa história. Sob sua direção e silêncio o MPF gravou e divulgou vídeos nas redes sociais, virou um partido político, e escreveu um capítulo triste, um PowerPoint vergonhoso que causou rubores até na extrema direita.

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No “episódio Odebrecht” optou pelo caminho fácil do aplauso e da infâmia. Manchou reputações misturando corrupção com caixa dois e até “ouvi dizer”. Jogou a política aos leões. Generalizou a crítica aos políticos e às coalizões, necessárias para governabilidade em qualquer democracia no mundo. Deu a “carne fresca” que faltava para a consolidação do fascismo brasileiro. Foi cúmplice do fim da presunção da inocência, do abandono do estado democrático de direito, das garantias individuais e da “condenação pelas convicções”.

Ignorou o desemprego da patuléia ao defender aumentar seu próprio salário para quase 40 mil reais. Fechou os olhos aos supersalários que zombam do teto constitucional. Distribuiu “auxílio moradia” para seus pares. Foi generoso com os colegas, do presente e do passado. O ex-procurador geral, Antônio Fernando, implacável no seu “domínio do fato” contra Zé Dirceu, se aposentou e virou advogado de defesa do probo Cunha. Os políticos que este “estamento superior” carimbam como bandidos jamais resistiriam a tamanha contradição, a efêmera transmutação das convicções pelos honorários.

Fez a alegria do “Tio Sam” ao auxiliar no desmonte da Petrobras e fornecer informações para que os acionistas norte-americanos tentem liquidar nosso maior orgulho. Ajudou a destruir a engenharia nacional, referência internacional presente em mais de 70 países. Inaugurou a rentável “indústria da delação” e as “colônias de férias” onde corruptos milionários e confessos passam férias forçadas jogando animadas partidas de tênis. Reescreveu a novela Vale Tudo, escalando Joesley Batista para o papel do corrupto original, Reginaldo Farias, que no “grand finale” escapa ileso, entra em seu helicóptero e dá uma banana ao país. Após não ter como sustentar o insustentável ao ver seu braço direito ser desnudado em praça pública, foi arrastado para um boteco de Brasília, onde manchou sua reputação.

Até as morsas do ártico sabem de onde vieram as “exclusivas” que a Globo, “paladina da democracia”, cansou de repetir. Vai embora devendo explicações sobre sua relação com a família Marinho.

Desfilou inebriado pela fama nos palcos da elite brasileira. “Enquanto houver bambu, lá vai flecha!” Entre a retidão e o equilíbrio, o compromisso com um projeto de país, a necessária separação do joio do trigo, o firme combate à corrupção sempre na defesa dos interesses nacionais, escolheu o ego e a capa dos jornais. Acabou linha auxiliar de interesses imperialistas. Já nos estertores de seu mandato resolveu atacar a Venezuela e Maduro, deixando claro suas opções.

Sempre que se sentiu ameaçado utilizou do mesmo expediente: tiro diversionista na esquerda. Surfou na ilusão conciliatória da social democracia enquanto perdurou a visão inocente de um “republicanismo asséptico”. Quando resolveu tirar o velho e experiente Centrão para dançar caiu no meio do salão e passou vergonha.

Chegou o dia 17 de setembro de 2017. Não há dúvida que avançamos no combate à corrupção, velha chaga de nossa herança oligárquica patrimonialista. Mas esta tarefa imprescindível foi conduzida de forma correta? O Brasil hoje está melhor ou pior que há quatro anos atrás? A vida do povo melhorou? A corrupção foi erradicada? Quem está no Poder? Os fatos são objetivos.

Auxiliou na deposição de uma presidenta honesta, ajudou a destruir setores estratégicos da economia nacional, caçou Lula como um troféu, fortaleceu o fascismo brasileiro, salvou empresários e delatores confessadamente corruptos e ainda levou e consolidou o Velho Centrão no poder. Prendeu alguns corruptos, é preciso reconhecer. Recuperou algum dinheiro, não se pode negar. A resultante final serve aos interesses nacionais? Nossa democracia sai mais forte? O Ministério Público sai mais forte? Como bem escreveu Maílson, o MPF “transformou-se em organização incomum na democracia”. A reação será iminente, é apenas questão de tempo.

O “neofacista de coturno” e outros expoentes “de suéter” da reação não são o problema. Estes enfrentamos à luz do dia e derrotamos nas ruas e no voto, dentro do jogo democrático. O perigo são os que atuam nas sombras e querem substituir a democracia por uma suposta meritocracia, uma “pseudorepública autoritária de iluminados superiores”, relegando ao povo “incapaz” o papel de simples coadjuvante. Por que a sanha para tirar Lula das eleições? Infiltrados nas diversas esferas do aparato estatal, talvez sejam a maior e verdadeira ameaça ao futuro da nação.

* Ricardo Cappelli é jornalista e secretário de estado do Maranhão, cujo governo representa em Brasília.

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