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O comentário de Beth Veloso veiculado originalmente no Papo de Futuro, da Rádio Câmara, com Paulo Triollo:

O Papo de Futuro inicia hoje um novo ciclo de vida! Agora, somos 100% virtuais. Nada de estúdio ou bom dia pelo microfone! Em terras lusitanas, uso o Skype como alternativa ao silêncio do meu telefone e às caríssimas taxas de roaming internacional. A cidade de Porto, em Portugal, é a nossa nova morada, e vamos tentar destrinchar por aqui políticas que favoreçam a nossa internet, no difícil equilíbrio entre o acesso ilimitado, e os importantes debates sobre privacidade e vícios na rede.

Apenas uma hora de voo separa Portugal do Marrocos, mas a distância entre esses dois países em termos de uso da tecnologia é brutal! Uma incursão pelas altas montanhas Atlas até o deserto do Saara mostra um país parado no tempo, em que as mulheres carregam nas costas a alfafa, alimento para burros e cabras, enquanto os homens jogam com tabuleiros nas portas de suas aldeias berberes.

Brincar com a chuva que cai para amenizar os 45 graus do mercado de comida de Marraquexe ainda é a diversão das crianças, enquanto meu filho de 17 troca toda aquela cultura árabe milenar por uma costumeira navegação na sua linha do tempo. É no grito e na dança das cobras Nadja que os marroquinos seduzem seus clientes com bastante exotismo, enquanto meu filho aponta para um grupo de crianças que tentam descobrir como usar um celular roubado ou esquecido, não sei ao certo.
Em Porto, o contorno cinematográfico às margens do Rio Douro nada tem de desértico, como no Marrocos, hábeis usuários de celular é o que não faltam. Nos cafés, não são tabuleiros, mas as infotelinhas de bolso o que todo mundo usa, num contraste que é não apenas cultural, agora também tecnológico.

Enquanto visito sítios históricos e quase arqueológicos no continente africano, como o cenário do filme “Gladiadores”, em Quarzazade, vejo que a escravidão moderna é pela tela digital, gerando um fenômeno de dupla fadiga: dos jovens como meu filho que só conseguem largar seu aparelho para se segurar firme e não cair do camelo, e a minha irritação por perceber que o choque de culturas entre o Brasil e a África e suas diversas nuances passa batida para uma juventude sequestrada pela roleta do Facebook!

Ninguém está por inteiro nesta era errática de centralismo digital, e, como eu ia dizendo, me irrita disputar a atenção com uma tela de poucas polegadas, nos levando ao bizarro da urgência por dar um passo atrás. A onda agora são as novas técnicas de higienização digital, em que novas gerações vão frequentar não apenas escolas, mas grupos como “Internéticos Anônimos”, rogando para que possam livrar-se da compulsão pelo gadget “só por hoje”.

Num excelente artigo publicado na Folha de S.Paulo, intitulado “Sereias digitais, vício em tecnologia e dicas para um uso saudável da internet”, Ronaldo Lemos fala de um movimento de desapego ao celular, similar ao “slow food”, que combate o jeito americano de correr com tudo.

Não temos dúvida de que, no caso do vício pelo smartphone, a abstinência, de fato, exclui e segrega, mas o exagero, por outro lado, torna o uso da tecnologia algo tão perigoso quanto álcool ou outros tipos de drogas! O problema é a dose!

O Papo de Futuro fica por aqui, com a receita do dia: até chocolate pode matar, mas internet demais, também emburrece!

Fale com a gente: papodefuturo@camara.leg.br

***Poderá haver diferenças entre o texto escrito e a coluna realizada ao vivo no programa “Câmara é Notícia”, da Rádio Câmara***

<<O dever da felicidade na sociedade da irritação e do suplício, na fábula moderna da internet

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20/11/2017 16:02
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