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Demorei a me refazer do susto! Minha voz simplesmente sumiu, comportei-me como se de fato tivesse sido apanhado em flagrante cometendo algum delito. Encolhido e mudo, esperei o tempo passar, já levava uma eternidade quando surgiu o secretário, Coronel Luís Ribeiro. Sentou-se ao meu lado, pediu-me que ficasse calmo. Com um sorriso no rosto disse-me que trazia boas noticias, eu relaxei.

– Confirmado! Falei por telefone com Dom Aristides Pirovano, nosso bispo. Disse-me ele que de fato tu és candidato a ingressar no Pré-seminário de Santana, comemorei a noticia em silêncio. – E tem mais –, prosseguiu: – Tu não precisas mais pedir a ninguém, acabaste de ganhar um enxoval completo! Volta aqui com tua mãe, na semana que vem. Perplexo diante da reviravolta, tomado pela emoção, não consegui nem mesmo agradecer, caí no choro.

Passava das três da tarde, depois de um almoço delicioso e inesquecível, o secretario me liberou, apressei o passo a caminho de casa, atravessei a praça transbordando de felicidade, mas apreensivo. Mesmo sendo portador de uma notícia maravilhosa, como reagiria minha mãe? Com certeza não teria uma recepção calorosa, eu lhe havia mentido, feito tudo às escondidas, isso ela não perdoaria facilmente. De cara fechada veio me receber na porta perguntando muito contrariada se aquilo era hora de chegar. – Consegui! Tudo resolvido! Disse-lhe com ar triunfante. – Consegui o enxoval completo, minha ida para o seminário está garantida. – Como? Que conversa é essa menino? Relatei-lhe, pausadamente e com detalhes, o que tinha me acontecido, no final prometi que nunca mais lhe esconderia nada, e concluí pedindo perdão. Disse-me poucas e boas, mas nesse dia, depois do carão, milagrosamente, dispensou-me do castigo. Tomou-me pela mão e me elevou para a cozinha, sem parar de resmungar, serviu-me um prato com feijão, arroz, farinha de mandioca e um pedaço de pirarucu frito, e eu comi de novo.

Poucos dias depois, voltei com minha mãe à casa do secretário, de suas mãos recebemos uma mala recheada com o que constava na lista da diocese, estava tudo lá, meias e sapato, da tolha de banho ao sabonete.

Uma semana depois, padre Ângelo veio me buscar, enquanto o padre tranquilizava meus pais, em silêncio, com lágrimas no olhos, despedi-me dos meus irmãos. Com a ajuda do mano José, coloquei minha mala no carro e partimos. Percorremos em torno de vinte quilômetros por uma estrada de terra batida até o Porto de Santana, na margem esquerda do rio Amazonas, onde grandes navios embarcavam minério de manganês. Ali tomamos uma catraia, quinze minutos depois, desembarcamos na ilha quase desabitada que ficava em frente ao porto, no meio do rio Amazonas. Na época, Santana, era um vilarejo de poucas casas, hoje é uma cidade com mais de cem mil habitantes.

Estudei na ilha por dois anos, no terceiro a Diocese decidiu mudar para o bairro do Laguinho em Macapá, onde continuei estudando, em regime semi-interno, no pré-seminário de São Benedito, que hoje é uma escola pública. No final do terceiro ano os padres chegaram a conclusão de que eu não tinha vocação para a vida religiosa e fui dispensado.

Desse tempo, ficaram marcas profundas. Sem dúvida, os anos vividos no seminário deram norte e razão à minha existência. Na leitura dos textos bíblicos e na vida dos santos da igreja, mergulhei fundo no humanismo cristão. Passei a enxergar Deus em cada pessoa, condoer-me com o sofrimento dos mais humildes, rebelar-me diante das injustiças. Tanto que, muitos anos depois, o coronel Atanásio, diretor do presídio São José onde me encontrava preso por resistir à ditadura civil-militar imposta pelo golpe de 1964, enfático, responsabilizou os padres, que considerava comunistas, por ter metido ideias marxistas na minha cabeça, que terminaram levando-me à prisão.

Lembro-me de um diálogo tenso e desigual que tive com ele às vésperas do Natal de 1970. Ele, católico praticante, estava às voltas com um presépio que decidira montar no pátio do presídio, eu ainda não completara uma semana de estadia quando, num final de tarde, chamou-me ao seu gabinete.

− Veja só! Acabo de descobrir de onde vêm essas suas ideias esquisitas. – Num tom sarcástico, prosseguiu: − Quer dizer, então, que você passou três anos em um seminário? Queria ser padre, é?

- Sim, senhor diretor. Estive em um seminário católico, já faz muito tempo, eu tinha 10 anos. Sem muita convicção eu lhe diria que sim, queria ser padre, mas na verdade, a maior motivação era poder estudar em melhores condições. Naquela época, minha família estava na maior dificuldade de dinheiro, morávamos na periferia de Macapá, em uma casa sem água tratada e energia elétrica. Estudar a luz de lamparina não é nada fácil.

- Pois acho – retomou o diretor – que fizeste a opção errada, pra mim está tudo explicado, tenho certeza de que tuas ideias marxistas nasceram do contato com esses padres. Foram eles que envenenaram teu espírito com o comunismo. É por causa deles que tu estas aqui, sofrendo. – Padre comunista! Vade retro, satanás! – fez o sinal da cruz, e concluiu: – uma desgraça para os jovens.

- Desculpe-me senhor diretor, permita-me dizer que li pouco sobre Marx, e do que li, confesso que pouco entendi. Quanto aos padres do seminário, eram italianos, e pelo que me lembro, não nutriam qualquer simpatia pelos comunistas, ao contrário, contavam histórias dramáticas das perseguições sofridas por padres e freiras na União Soviética.

Sobre minha passagem pela penitenciária, e o episódio do presépio do coronel Atanásio, que aliás era uma armadilha da qual escapei por pouco, recomendo a leitura de Florestas do meu exilio, romance autobiográfico, editado pela Terceiro Nome, onde conto em detalhe como terminou essa história.

Falar do futuro, sentado na janela do passado, chama-se ficção, o que não é o caso, portanto retornemos ao Igarapé das Mulheres. Suponho ter falado o suficiente sobre minha família, agora vamos ao encontro dos Camarão e dos Atana, vamos saber o que aconteceu com seus descendentes que, junto comigo, cresceram no Igarapé das Mulheres.

O Igarapé das Mulheres no tempo da lamparina
O Igarapé das Mulheres no tempo da lamparina II
O Igarapé das Mulheres no tempo da lamparina III
O Igarapé das Mulheres no tempo da lamparina IV
O Igarapé das Mulheres no tempo da lamparina V

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