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Capítulo II
“Dr. Ramiro Lima, que de médico, descobriu-se mais tarde, não tinha nada.”

Último parágrafo do capítulo anterior:
” Se não havia rua, se ainda não era cidade, certamente não havia água encanada ou energia elétrica. Isso mesmo, não havia qualquer vestígio dos equipamentos que hoje protegem a saúde nos aglomerados urbanos, e isso determinava os alarmantes índices de mortalidade infantil. E por que então escolher um lugar desses para morar?”

Era tudo gente de origem ribeirinha, recém chegada à cidade, tentando manter alguns traços da paisagem e da cultura deixada para trás, lembro meu pai argumentando o quanto era bom morar na beira do rio.

De como fui, com minha família, parar no Igarapé das Mulheres, é uma longa história, explico. Na chegada meu primeiro contato com a vida urbana (ruas, carros, luz elétrica) foram de espanto, admiração e medo. Lembro como se fosse hoje, estava por completar sete anos quando, ao desembarcar da canoa ainda meio mareado, pisei pela primeira vez em uma rua de Macapá. Foi na Cândido Mendes, deparei-me com dragões de metal, que urravam e botavam fogo pelos olhos. Um desses, por pouco, não me arrastara para seu reino , passou raspando por mim. Depois do susto, a depender de mim, voltaria para a beira do rio Jurará no coração da Ilha do Marajó, sem carros e sem vizinhos ao alcance da vista. Lá me entendi como gente, e vivia com destreza a vida ribeirinha, sabia nadar, remar, pescar, subir e colher o fruto do açaizeiro.

Mas o futuro, desenhado por minha mãe, previa os filhos na escola. A decisão apressada de partir, deixando tudo pra trás, foi tomada em circunstâncias dramáticas na segunda metade do ano de 1954, não lembro o mês. Meu pai, que deixou o emprego de condutor de bonde em Belém para aventurar-se na extração de seringa na ilha do Marajó, havia contraído tifo, doença infecciosa gravíssima, na época ainda sem cura na região. Desesperada, minha mãe vendeu o que pode, juntou as poucas economias e embarcou meu pai, juntamente com os filhos, em uma canoa a vela rumo a Macapá.

Depois de duas semanas de tratamento sem resultados, ela foi chamada à parte, e numa conversa franca, o médico lhe comunicou que infelizmente não havia tratamento disponível para a doença, que entregasse a Deus, pois do ponto de vista da medicina o caso estava encerrado. Inconformada, apegou-se a uma vaga informação e passou a correr atrás de um médico especialista nessas doenças, recém-chegado a Macapá. Batendo de porta em porta terminou encontrando o que procurava.

Em poucas palavras relatou seu drama ao Dr. Ramiro Lima, que de médico, descobriu-se mais tarde, não tinha nada, mas tinha o poder da cura, operava milagres receitando e aplicando uma injeção que estava revolucionando a medicina, mas que só ele dispunha. Minha mãe ouviu dele o que esperava ouvir, encheu-se de esperança, mas também de preocupações quando ele lhe disse que o tratamento custaria caro e, sem qualquer cerimônia, exigiu a metade do pagamento adiantado. Na esperança de salvar a vida do homem que amava, minha mãe não hesitou em gastar até o último centavo com a nova invenção da ciência, para retirar meu pai do estado de coma, garantindo-lhe o direito de viver.

E assim o milagre aconteceu, milagre da inteligência humana: a penicilina, inventada havia poucos anos, produziu efeito imediato, dois dias depois da aplicação das primeiras injeções, pelo médico que não era médico, ele saltou para dentro da vida, voltou a se alimentar e falar, em pouco tempo recuperou a saúde. Essa droga fantástica que assegurou mais vinte anos de existência a meu pai segue operando milagres até hoje, esticando a vida de todo mundo. A partir da invenção da penicilina, as doenças infecciosas passaram a ter tratamento, aumentando a cada ano a expectativa de vida das pessoas.

Mas a saúde financeira da família era crítica, a falta de dinheiro pôs meu pai na encruzilhada, sem saber para onde seguir. Tentou convencer minha mãe a retornar para o Jurará, não conseguiu, resignou-se, mas fez uma última viagem para recolher o que fosse possível.

Cuidadosamente desmontou a casa, aproveitou uma boa parte da madeira, colheu palha de buçú para a cobertura, embarcou o que pode e retornou. Na maré alta entrou com sua canoa no Igarapé das Mulheres, desembarcou sua carga próximo ao terreno que escolhera e, no dia seguinte, começou a fincar os esteios da casa onde, por treze anos, moraria com minha família, desses quase a metade vividos sem rua, água encanada ou energia elétrica. Lembro que a noite estudávamos à luz de lamparina, no dia seguinte, ao entrarmos em sala de aula com as narinas sujas de fuligem, éramos alvos de chacota dos colegas.

* Este é o segundo de uma série de oito capítulos escritos pelo senador sobre histórias vividas pelo povo da margem esquerda do Rio Amazonas.

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