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Capítulo III: “O anjinho da dona fulana voou para o céu”

Último parágrafo do capítulo anterior:

“Mas a saúde financeira era crítica, meu pai em meio à encruzilhada, sem saber por onde recomeçar tentou convencer minha mãe a retornar para o Jurará, não conseguiu, resignou-se, mas fez uma última viagem para recolher o que fosse possível. Cuidadosamente desmontou a casa, aproveitou uma boa parte da madeira, colheu palha de buçú para a cobertura, embarcou o que pode e retornou. Na maré alta entrou com sua canoa no Igarapé das Mulheres, desembarcou sua carga próximo ao terreno que escolhera e, no dia seguinte, começou a fincar os esteios da casa onde eu moraria com minha família por treze anos, quase a metade vividos sem rua, água encanada ou energia elétrica. Lembro que à noite estudávamos à luz de lamparina e, no dia seguinte, ao entrarmos em sala de aula com as narinas sujas de fuligem, éramos alvos de chacota dos colegas.”

O cenário de pobreza que emoldurava nossas vidas cobrava tributo dos mais vulneráveis e indefesos: as crianças do bairro. Eu me considero um sortudo. Consegui furar o cerco, sobrevivi! Mesmo bebendo água do poço da dona Mundica, cuja fossa negra não era tão distante, e de outras tantas ameaças que rondavam por perto: coqueluche, sarampo, varíola, verminose, tuberculose, malária.

Mas não poderia deixar de lhes contar que, antes de chegar à adolescência, morri e ressuscitei pelo menos duas vezes. Para rememorar acontecimentos pretéritos recorro com certa frequência à minha mana Raquel, a segunda da prole dos Capiberibe. Tem alguns anos vividos a mais que eu e, antigamente, nas famílias de muitos filhos (éramos sete) os mais velhos cuidavam dos mais novos, a ela então cabia cuidar de mim.

Há poucos dias, eu a encontrei, descontraída e feliz, em sua festa de 75 anos, indaguei-lhe sobre esses dois acontecimentos. Da minha primeira morte e ressureição, disse-me que não gostava nem mesmo de lembrar, mas terminou falando, pouco, mas falou.

Morávamos em um casarão de madeira coberto de palha, sem muito conforto, erguido de frente para o Jurará com os fundos para o igarapé chamado Céu, no profundo isolamento da Ilha do Marajó, sem vizinhos no horizonte. Na parte da frente funcionava o comércio de meu pai, servido por um trapiche que avançava alguns metros sobre o rio e por onde embarcavam pélas de seringa, e sementes oleaginosas com destino a Belém ou Macapá. E desembarcavam farinha de mandioca, açúcar, sal, café, querosene, tecido, terçado, espingarda e munição. Meus pais funcionavam como elo entre dois mundos, intermediavam a troca de natureza por produtos industrializados.

As demais dependências da casa eram território de ocupação familiar. Dispúnhamos de cinco quartos, sala de estar e um corredor interligando um puxado que abrigava a copa e a cozinha. De sua lateral saia uma passarela que levava, há poucos metros dali, ao banheiro e sanitário, erguidos em madeira um ao lado do outro sobre o leito do igarapé do Céu.

Tinha menos de três anos quando fui levado ao sanitário pelas mãos de uma mulher, não sei se empregada ou agregada, que se descuidou e eu varei pelo buraco da caixa de madeira, que funcionava como vaso, caindo no igarapé, em vez de gritar por socorro, possivelmente com medo de reprimenda, ela silenciou e me abandonou.

Não demorou para que dessem por minha falta. Como só havia dois lugares possíveis, a floresta e o rio, em que pudesse desaparecer, e como eu não sabia nadar, a hipótese mais provável é que eu estivesse morto nas águas do rio Jurará, foi lá que intensificaram a procura do corpo. Depois de quatro horas de aflição, quando já não restava esperança, a mulher vendo o desespero de minha mãe, arrependeu-se e revelou o acontecido. Correram todos para a beira do Céu, onde fui encontrado, imprensado, semi flutuando entre duas toras de madeira, inconsciente, com o ventre dilatado de tanto engolir água, mas milagrosamente vivo.

Essa não foi a única vez que me vi a meio caminho entre este e o outro mundo. Antes de chegar à adolescência, morri e ressuscitei mais uma vez abatido por uma doença danada, na época, epidêmica, hoje ainda endêmica e comum nos trópicos. Mais que uma doença, um problema político, ao que pese o avanço da ciência, na Amazônia ela continua atormentando comunidades pobres de áreas insalubres, falo da triste e famosa malária.

Se dissesse que lembro os detalhes desse acontecimento específico estaria mentindo, mas guardo na memória os incômodos das várias malárias que enfrentei. Quando ardia em febre, uma sede alucinante me levava ao delírio, transportando-me para um deserto escaldante no qual vagava suplicando por água. Para me acalmar, Raquel colocava um chumaço de algodão úmido nos meus lábios, o desespero era tamanho que a qualquer descuido dela eu engoliria o algodão. A sede pavorosa vinha acompanhada de um frio intenso e doloroso que provocava tremedeira no meu corpo, impossível de controlar, ampliando o sofrimento. Na verdade, ainda hoje, vez por outra, sem menos esperar e sem que eu tenha explicação, sinto o mesmo frio terrível como se o plasmódio da malária tivesse voltado a invadir meu corpo. Instado por Artionka, minha filha e parceira literária, busquei um médico a quem pedi explicações. Disse-me que os bichinhos da malária chamados P. Falciparum e P. Vivax, que se alojam no fígado, mesmo combatidos pelo tratamento resistem em estado latente, quando a pessoa é submetida a estresse, os sintomas podem voltar, principalmente o frio intenso.

Não sei como aconteceu meu retorno ao mundo dos vivos, mas lembro que em dado momento descobri bolhas em minhas mãos, pareciam queimaduras leves. Raquel me revelou que um erro no tratamento de malária teria me deixado em coma profundo. O médico recomendou então a meus pais que me levassem para morrer em casa, e assim foi feito, mas a previsão dele falhou e eu acordei. De lembrança da tormenta restou, por alguns anos, as marcas das queimaduras. É que antigamente, nos velórios, era costume cruzar as mãos do defunto e entre os seus dedos espetar uma vela acessa, o que explica as bolhas nas minhas mãos causadas por pingos de cera quente.

Quantos dos meus contemporâneos contariam histórias semelhantes? Alguns certamente, aqueles que, como eu, sobreviveram aos ataques sem trégua dos inimigos visíveis e invisíveis soltos na natureza. Eram terríveis, uns penetravam pelos nossos pés descalços, outros invadiam nossos corpos ao tomar água do poço de Dona Mundica, provocando doenças que nos prostravam por longas temporadas, em muitos casos sem volta, engordando as estatísticas da mortalidade infantil. Cresci ouvindo as pessoas dizerem: “o anjinho da dona fulana voou para o céu”.

* Este é o terceiro de uma série de oito capítulos escritos pelo senador sobre histórias vividas pelo povo da margem esquerda do Rio Amazonas. Clique abaixo para ler os capítulos anteriores:

O Igarapé das Mulheres no tempo da lamparina
O Igarapé das Mulheres no tempo da lamparina II

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