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“Não sei ser claro para quem não sabe ser atento”. O filósofo Jean Jacques Rousseau abriu “O contrato social”, seu tratado mais famoso, com essa frase. Hoje, pouco mais de 250 anos após sua publicação, o aviso parece muito apropriado para resumir as difíceis relações entre políticos e sociedade no país.

Por toda parte, se vê uma vontade enorme de mudar. Todos falam disso. No entanto, há pouco consenso sobre para onde se deve ir. A enorme insatisfação das ruas ainda não se converteu em uma força reformista ou sequer em uma agenda mínima.

As pessoas sentem a falta de uma direção. É isso que elas buscam expressar quando dizem que “falta um líder”. Por mais que não tenham clareza sobre este pedido, no fundo não estão falando de alguém de carne e osso, mas se dando conta que nossa sociedade não tem um projeto para si mesma.

O esgotamento do projeto lulopetista, sem algo para botar no lugar, é a principal razão desse vazio. A agenda liberal implantada pelo governo Temer, por mais necessária  que seja na maior parte dos seus aspectos, não foi pactuada com a sociedade pela via eleitoral.

E é nesse ponto que voltamos à frase de Rousseau. Essa agenda existe e vem sendo repetida inúmeras vezes pelas pessoas. Mas é preciso estar atento para ouvir e aprender o que a sociedade está dizendo.

Recue no tempo até 2013. O que os manifestantes pediram nas jornadas populares que antecederam a Copa das Confederações? O poder constituído naquela época não conseguiu responder a esta pergunta. Reclamavam que os protestos não possuíam líderes e, portanto, não haveria agenda a ser negociada.

Entretanto, não era difícil ver as mensagens. Um dos cartazes mais populares trazia esses dizeres: “se o seu filho ficar doente, leve-o ao estádio”. O que as pessoas estavam gritando aos governantes era, “saibam eleger prioridades”.

Outros cartazes pediam “queremos hospitais padrão Fifa”. Queriam dizer que era necessário aumentar a qualidade dos serviços e bens públicos direcionados ao cidadão. É preciso buscar uma melhor relação de custo e benefício com os recursos existentes.

Por fim, pediam o arquivamento da proposta legislativa que limitava a autonomia e as funções do Ministério Público. Ou seja, os manifestantes queriam mais transparência.

Reprodução

"O desafio não é chegar à lua. Mas fazer funcionar os pactos básicos da vida em sociedade"

Prioridades, eficiência e transparência. Eis aí uma agenda simples e profundamente transformadora. Tratam-se de princípios universais, dado que são bem-vindos tanto à direita quanto à esquerda.

A sociedade está falando e os agentes políticos precisam redobrar sua atenção. No Brasil, luta-se pela racionalidade, por uma abordagem realista e pela aceitação dos fatos objetivos da vida. É uma batalha civilizatória.

Nelson Rodrigues dizia que há coisas tão óbvias que acabam passando desapercebidas. Assim, apenas os grandes profetas seriam capazes de ver o claro, o manifesto e o evidente. O eleitor não quer o melhor socialismo ou a experiência neoliberail mais atual.

O desafio não é chegar à lua. Mas fazer funcionar os pactos básicos da vida em sociedade e criar condições para que possamos votar a confiar uns nos outros e nas instituições. Os eleitores já terão feito muita coisa se souberem escolher candidatos que saibam escolher prioridades, busquem a eficiência e trabalhem com transparência.

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