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What a wonderful world!

por Paulo José Cunha Publicado em 28/08/2017 07:30

“Ah, mas desse jeito o país vai se acabar! Quanto roubo, quanto   gatuno! Todo dia vai mais gente pra cadeia! O próprio presidente da república investigado por corrupção! Dois ex-presidentes da Câmara na cadeia, um ex-governador do Rio de Janeiro na cadeia, grandes figuras da esquerda e da direita na cadeia, todo mundo na cadeia! Meu Deus! Um ex-presidente condenado sob a acusação de receber vantagens indevidas de empreiteiras, com a biografia abarrotada de triplex, sítios, palestras que ninguém assistiu e um filho milionário de uma hora pra outra! E olha que ainda não foi pra cadeia pra não criar problema, como disse o Moro. Ah, mas como é revoltante saber que um ex-presidente do Senado foi denunciado por corrupção! Que os presidentes da Câmara e do Senado estão citados na Lava Jato! E o líder do governo também! Ah, que tristeza ver tantos deputados e ex-deputados, senadores e ex-senadores, ministros e ex-ministros, gente de tudo quanto é partido, dirigentes das maiores empreiteiras do país abrindo a boca pra reduzir a pena e contando na televisão aquelas falcatruas! Ah, como é deprimente saber que diretores da Petrobras receberam propinas tão milionárias que arrasaram a companhia! Ah, como dói ver as tripas do país expostas em praça pública, para escárnio do mundo inteiro! Que vergonha! A coisa chegou a tal ponto que estão até faltando tornozeleiras eletrônicas! Onde vamos parar desse jeito?”

Depois da tempestade, a podridão

Pois afirmo: nunca o Brasil viveu tempos tão promissores. Finalmente, depois de séculos de exploração canalha e solerte das riquezas nacionais pela elite dirigente, finalmente o país está sendo virado pelo avesso, a bandidagem engravatada está indo parar atrás das grades e – talvez a mais alvissareira notícia de todas! – está faltando tornozeleira pra tanto mocotó de cretinos do grand monde.

Sabe o que é isso? É um país que finalmente foi obrigado por alguns homens de bem – como esse juiz porreta de Curitiba – a tomar um purgante brabo. E agora está botando pra fora a podridão toda. Até outro dia ela ficava escondida nos intestinos, com as lombrigas no bem-bom, comemorando. E o povão aqui fora, na pindaíba, sem saber de nada. A podridão é apenas o sinal de que o purgante está fazendo efeito. Mau cheiro é horrível, mas passa.

EBC

Paulo José Cunha festeja: “Finalmente o país está sendo virado pelo avesso”

Toda a força à Lava Jato

Neste instante, é fundamental manter o purgante, até a podridão sair todinha. É preciso apoiar a turma de Curitiba. Eles estão a favor do Brasil. Quem diz o contrário está é se borrando de medo de encarar uma cana. Lava Jato e operações congêneres têm de continuar indefinidamente enquanto houver o que investigar. Que papo é esse de fixar prazo de duração? O mau cheiro é horrível. Mas é o preço que se paga pela desinfecção. Só pra lembrar: a palavra purgante tem a mesma origem etimológica da palavra purgatório, tá?

Ah, mas é tudo tão lento…  Será? A depuração e o aperfeiçoamento das práticas políticas e econômicas costumam demorar mesmo. O processo histórico é lento por definição, a não ser quando ocorre uma ruptura institucional. Mas é sempre bom dar uma aceleradinha como agora, em que as colheradas do purgante estão sendo enfiadas na marra goela abaixo. Às vezes produzem ferimentos – como aquela condução coercitiva do Lula, um exagero que pegou muito mal. Mas as outras ações (inclusive a condenação que atingiu o mesmo Lula por causa do tríplex) são sinais de que as coisas vão bem. E provam que até os intocáveis estão sendo atingidos.

What a wonderful world!

A lentidão é aparente. As coisas estão andando, sim. Até outro dia eu circulava pelos gabinetes do Congresso e encontrava esposas, noras, genros e cunhados de deputados e senadores lotados nos gabinetes. Era uma prática tão comum que nem mesmo a imprensa se dava conta do crime de nepotismo, praticado ali, na cara de todo mundo. Até outro dia empregados domésticos só podiam usar o elevador de serviço e ninguém reclamava disso. Até outro dia eram raros os concursos públicos, e as nomeações eram em grande parte feitas por apadrinhamento. Até outro dia os órgãos públicos demoravam ou não prestavam informação alguma sobre seus atos. A Lei de Acesso à Informação está aí. E funciona! Ou seja: as mudanças estão ocorrendo, sim.

E, no quesito corrupção, o quadro é altamente alvissareiro. As coisas estão andando até depressa. Aquela choradeira lá do início do artigo precisa ser substituída por um brinde ao Brasil depurado que está vindo aí. Um país onde a população pode ver todo dia a flor da cretinália tupiniquim indo de cabeça baixa pro xilindró. Onde alguns políticos, habitués das práticas mais abjetas, estão tendo de recuar debaixo dos apupos da cidadania que não engole mais as safadezas. Antes do mensalão, quando se viu algo parecido?

Portanto… alegria, garotos! Brindemos ao país onde estão faltando  tornozeleiras! Vamos combinar: um país onde faltam tornozeleiras está no rumo certo. Quero morar lá.

Tim-tim!

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